terça-feira, 22 de julho de 2014

4. GRAÇA DIVINA X MÉRITO PESSOAL

       Grande parcela da cristandade tem considerado como a mais legítima expressão da "Palavra de Deus" a afirmativa do apóstolo Paulo de Tarso, em uma de suas famosas cartas, de que é pela graça de Deus, mediante a nossa fé expressa em Jesus, que alcançamos a salvação, e não pelas nossas boas obras (ver opinião contrária do apóstolo Tiago), para que não nos vangloriemos de nossa própria capacidade ou de nossos próprios esforços em conquistá-la.
       Muitos pregadores do evangelho enfatizam que só há uma maneira de o homem salvar sua alma: aceitar Jesus Cristo como seu Salvador, único e suficiente, o que quer dizer sem nenhum intermediário. Explicam que sem essa condição não se pode alcançar a graça divina; e sem esta não haverá salvação, restando ao pecador, mesmo em se tratando de pessoa muito boa, generosa, caridosa e de caráter retilíneo, a condenação irremediável. Sendo assim, a salvação não se dá por mérito, mas trata-se de um "dom gratuito de Deus".
       Segundo uma determinada corrente teológica, há ainda um outro elemento fundamental na salvação, que é a eleição divina. Significa que Deus é Quem elege as almas que deverão ser salvas. Por dedução lógica, Deus também é o Que elege as almas destinadas à condenação perpétua.
       A fim de evitarem a rejeição natural a esta teoria, que parece contraditória à imagem que se costuma fazer de um Deus supremo em bondade, misericórdia e amor, os teólogos apresentam a explicação de que "a eleição já foi feita segundo a presciência de Deus, muito antes da fundação do mundo"(ver Manual de Teologia Sistemática, de Zacarias de Aguiar Severa).  De acordo com esta tese, Deus conhece perfeitamente todas as coisas futuras e cada pessoa que ainda não nasceu, sua história de vida e suas escolhas ainda não realizadas. Assim, Ele sabe, por antecipação, a quem poderá chamar para o grupo dos que serão salvos e a quem não adiantará nenhum apelo, por mais veemente se faça, para que atenda ao Seu chamamento e aceite a Sua graciosa dádiva.
       Conclui-se daí que é o próprio Deus Quem toca no coração dos Seus eleitos para que eles procurem por Jesus Cristo, Seu Filho amado, Salvador da Humanidade e propiciador da Graça, independente de obras realizadas ou não, bem como de sentimentos e emoções pessoais sentidos ou não.
       Ainda na mesma linha de raciocínio, esses pregadores do Evangelho costumam asseverar que a fé também constitui um dom especial de Deus para as criaturas que devem gozar da salvação. Isto significa que sem a ação direta de Deus no coração do homem, este permanece árido, sem uma crença verdadeira e sem fé, mantendo-se pois no caminho da perdição, muitas vezes seguindo orientações erradas, sendo enganado em suas crenças, à mercê da ação destruidora do Inimigo pessoal de Deus, a saber, o Diabo.
        Diante destas perspectivas, que, amiúde, nos são apresentadas por amigos queridos que nos desejam converter e conduzir à salvação, já alcançada por eles, mediante essa Graça, nos deparamos intimamente com a seguinte reflexão: Será que nós, humanos, somos meros fantoches, manipulados pelo Ser que nos criou, sem vontade própria e sem livre-arbítrio, até mesmo para sentirmos ou não confiança no Seu Poder supremo e no Seu Amor extremado por todos nós?
       Para início da nossa análise comparativa, nós, espíritas, evolucionistas quais somos, devemos dizer aos nossos companheiros de ideal cristão que, na nossa visão racionalista, entendemos que o ponto de chegada, ou destino final de cada Espírito é a sua pureza total e a sua perfeição quase integral, bem próxima, e ainda assim inferior, à do nosso Criador. Seria algo como, um dia, por longínquo que este esteja do momento presente, podermos dizer, imitando o Cristo: "Eu e o Pai somos um", guardada, é claro, a certeza da Sua soberania, para nós indiscutível, tanto quanto inatingível.
       No nosso pensar, se Deus nos escolhesse, a uns, sem o devido mérito, para a felicidade eterna, e a outros, igualmente sem o merecermos, para a também eterna infelicidade, que justiça haveria nisto? Nem os homens agem dessa forma, na sua conceituação de justiça ainda tão imperfeita. E se Deus fosse o doador da fé, sê-lo-ia também da ausência desta no coração do homem, o que Lhe revelaria um caráter parcialista e, mais uma vez, injusto.
       Ora, como imputaríamos Sabedoria plena e infinita a um Ser ao Qual não pudéssemos atribuir Justiça  verdadeira e inquebrantável?
       Donde concluímos que Deus, o Criador e mantenedor do Universo e da Vida, é pleno e infalível em sua Sabedoria, em seu Amor, em sua Misericórdia e em sua Justiça, sem o que não seria Deus; e, assim, outro Deus haveria com tais atributos, porquanto o Universo e a Vida não se fizeram a si mesmos, sem que Alguém, ou Algo, os criasse, e com uma finalidade absolutamente sábia. ///

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